Em 22 de outubro de 2026, a Pré-Sal Petróleo (PPSA) realizou o 1º Leilão de Gás Natural da União, na plataforma da CCEE. Pela primeira vez, o gás do pré-sal que pertence à União foi vendido diretamente para consumidores industriais.

O resultado mostra que a demanda existe: todos os 110 lotes foram vendidos, com disputa em todos eles. Neste artigo, explicamos como o leilão funcionou, o que os números mostram e o que ainda pesa no custo final do gás para a indústria.

De onde vem esse gás

Nos contratos de partilha do pré-sal, parte da produção de petróleo e gás pertence à União. Quem comercializa essa parcela é a PPSA, empresa pública vinculada ao Ministério de Minas e Energia.

No novo modelo, a PPSA ofertou o gás em lotes pequenos, direto para consumidores industriais, em um leilão operado pela CCEE, a mesma câmara que opera o mercado livre de energia elétrica.

Vale notar: a CCEE passou a se chamar oficialmente Câmara de Comercialização de Energia, sem o "Elétrica" no nome, um sinal de que seu papel vai além da eletricidade.

Os números do leilão

IndicadorResultado
Volume ofertado1,1 milhão de m³/dia
Lotes110 lotes de 10 mil m³/dia, todos vendidos
Empresas vencedoras23, de 36 habilitadas
Prêmio inicialUS$ 1,80/MMBtu
Ágio médio35% (prêmio médio de cerca de US$ 2,44/MMBtu)
Preço médio estimadoUS$ 5,83/MMBtu
Arrecadação estimadaR$ 377 milhões
EntregaMarço a dezembro de 2027

Como o preço é formado

O preço final do gás tem duas partes:

  1. Uma referência internacional: 115% da média das cotações diárias do Henry Hub, principal referência de preço do gás natural nos Estados Unidos, convertida pelo câmbio do mês anterior.
  2. Um prêmio: o valor em US$/MMBtu definido no leilão para cada lote.

Ou seja, o preço não é fixo. Ele varia mês a mês com o Henry Hub e com o câmbio. O comprador troca a referência atrelada ao petróleo, comum nos contratos de gás no Brasil, por uma referência de gás.

Quem comprou

Só podiam participar consumidores industriais de cinco setores intensivos em gás:

SetorVolume arrematadoEmpresas vencedoras
Química e petroquímica350 mil m³/dia5, entre elas Braskem, Rhodia e Evonik
Siderurgia, metalurgia e mineração320 mil m³/dia5, entre elas Vale, CSN, Gerdau, Samarco e Ternium
Cerâmica200 mil m³/dia8
Fertilizantes nitrogenados130 mil m³/dia2, entre elas Yara
Vidro100 mil m³/dia3

O setor vidreiro pagou o maior prêmio, cerca de US$ 4,01/MMBtu, mais que o dobro do lance inicial. Isso mostra o quanto o gás pesa no custo desse setor e o quanto ele estava disposto a pagar por uma alternativa. O setor de fertilizantes ficou com o menor prêmio, US$ 1,82/MMBtu.

O que ainda pesa no custo final

O leilão vende a molécula de gás. Ela é entregue na saída da unidade de tratamento de gás de Itaboraí (RJ), no Complexo de Energias Boaventura, o antigo Comperj.

A partir daí, cada comprador precisa contratar separadamente o transporte do gás até a sua planta. Por isso, o preço do leilão não é o custo final: transporte, distribuição e tributos ainda entram na conta, e variam conforme a localização de cada fábrica.

É a mesma lógica do mercado livre de energia elétrica: a negociação direta reduz o custo da energia em si, mas o custo do "fio" (ou, no caso do gás, do duto) continua existindo. Comparar só o preço da molécula não basta.

Por que o leilão importa

  • Mais competição na oferta: o mercado de gás no Brasil sempre foi concentrado. Um novo vendedor ofertando direto para a indústria amplia as opções de contratação.
  • Preço com referência de gás: a indexação ao Henry Hub dá ao comprador uma alternativa às fórmulas atreladas ao petróleo.
  • Sinal de demanda: 100% dos lotes vendidos, com ágio, mostram que a indústria está disposta a contratar gás fora dos contratos tradicionais.
  • Escala crescente: a PPSA já anunciou a intenção de fazer um novo leilão em 2027, com cerca de 1,8 milhão de m³/dia.

O volume ainda é pequeno perto do consumo industrial do país, e o contrato vale por apenas dez meses. Mas, como teste do modelo, o resultado foi claro.

O paralelo com a energia elétrica

O movimento do gás segue o mesmo caminho do setor elétrico: mais consumidores podendo escolher de quem compram, com a CCEE como plataforma. Na energia elétrica, a abertura chega à baixa tensão em 2027 e 2028, como explicamos no artigo sobre a abertura do mercado livre para a baixa tensão.

Nos dois casos, a lição é a mesma: a economia vem da negociação direta, mas exige olhar o custo completo, o contrato e os riscos.

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Fontes